Eleições, parte 3 – comentários gerais II

26/06/2010

Tem algumas ideias sobre eleições que são bem estabelecidas, mas que precisavam ser mais analisadas e menos automatizadas. Uma delas é o sufrágio universal. É um eufemismo, e sempre foi. O termo surgiu para se referir ao sufrágio universal masculino, em oposição ao voto censitário. Com o movimento pelo sufrágio feminino, o voto passou gradualmente a ser expandido para as mulheres. Hoje, temos o sufrágio universal adulto. O que significa que boa parte dos habitantes não votam. E mesmo no universo adulto, dependendo do país, muitos grupos costumam ser excluídos do processo: analfabetos, deficientes mentais, presos… No Brasil, o maior grupo adulto que não vota é o dos presos condenados. Supostamente, presos que ainda não foram julgados poderiam votar, mas apenas nas eleições deste ano o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou que se coloquem urnas à disposição de todos; antes, ficava a cargo das autoridades locais decidir isso. No total, o eleitorado brasileiro deve ser de pelo menos 134 milhões de pessoas. Considerando que o Brasil tem mais de 193 mihões de habitantes,  umas 60 milhões de pessoas não podem votar: longe do que eu chamaria de sufrágio universal. Não é questão de defender o voto de crianças, por exemplo. É que gosto de dar o nome certo aos bois, e evitar hipocrisia. No século XIX, o “universal” masculino excluía metade da população, que depois conquistou esse direito. E mesmo o “universal” adulto já foi minado, agora adolescentes de 16 e 17 anos também podem votar.

Aliás, coisinhas rápidas sobre a obrigatoriedade do voto. No Brasil, o voto é facultativo para os maiores de setenta anos, os analfabetos e, como disse antes, para os jovens de 16 e 17 anos. De resto, é obrigatório para todos os maiores de 18. Obrigatoriedade de voto é outro assunto que dá bastante pano pra manga. Depois da série, seria um assunto legal para tratar num post sozinho.

Por fim, tem uma característica da política brasileira que é bem incomum entre as democracias, mas nunca se discute, de tão enraizada. Aqui, para poder ser eleito, você precisa fazer parte de um partido político. É bem comum em outros países democráticos ver políticos concorrendo por conta própria: são chamados de independentes. Aí dá pra se perguntar: será que temos direitos políticos plenos? Se eu quiser me candidatar, preciso fazer parte de um partido, mas e se eu não gostar de nenhum deles? Dá pra começar outro, é claro! Só que, pra isso, são necessários pelo menos 100 fundadores e aproximadamente 500 mil assinaturas de apoio à criação do partido, distribuídas por pelo menos 9 estados. Ter direitos políticos significa liberdade de eleger e ser eleito. Temos mesmo?

Antes de terminar, vou tentar responder a dúvida da Gabi, em comentário no útimo post (achei melhor fazer aqui do que no comentário, para ficar mais visível): na teoria, acho que isso depende da Lei Orgânica de cada município. No caso da presidência da república, quando o presidente e o vice perdem o cargo ou morrem, a lista de sucessão é: presidente da Câmara dos Deputados, presidente do Senado e presidente do Supremo Tribunal Federal. Mas a função é temporária: quando vagam os cargos de presidente e vice, tem que haver uma eleição dentro de 90 dias. No caso dos prefeitos, acho que o mais comum é acontecer o mesmo: o presidente da Câmara dos Vereadores assume temporariamente até que se faça uma eleição especial.

No próximo post, finalmente, os votos! Vai ser sobre as eleições majoritárias. As proporcionais ficam pra depois, porque são as mais complicadas.


Eleições, parte 2 – comentários gerais I

24/06/2010

Opa, não esqueci da série, não! Só tava precisando de um tempo para colocar tudo no papel na tela. Antes de falar sobre os sistemas de votação e de distribuição desses votos, vou falar sobre as eleições brasileiras em geral. Mas antes de começar, vale avisar que neste e nos próximos posts vou falar de tudo. Pode parecer que estou dizendo muita coisa óbvia, que todo mundo já sabe. Mas existem muitas ideias erradas sobre o tema, e muitos detalhes que são óbvios para uns e desconhecidos para outros. Além disso, é importante ter todas as informações claras para se conhecer e discutir o sistema político.

Temos eleições regularmente, de dois em dois anos. Elas costumam ser categorizadas em dois tipos: gerais e municipais. Cada uma acontece de quatro em quatro anos, intercaladas. Originalmente, pela Constituição de 1988, o mandato do presidente era de 5 anos, mas foi diminuído para 4 em 1994. Por isso, a primeira eleição para presidente ocorreu em 1989, enquanto as eleições gerais foram em 1990; depois disso ficaram juntas. As atuais são as sextas eleições gerais desde a nova Constituição (1990, 1994, 1998, 2002, 2006, 2010). Nesse período, foram seis eleições municipais (1988, 1992, 1996, 2000, 2004, 2008). Além das eleições regulares, podem ocorrer eleições extraordinárias, quando, por exemplo, presidentes, governadores ou prefeitos (e respectivos vices) morrem ou perdem o mandato. Fora as eleições, também existem os referendos, como os de 1993 (sobre a forma e sistema de governo) e de 2005 (sobre a venda de armas de fogo).

Nas eleições gerais, elegemos os executivos federal e estaduais: presidente e governadores (e respectivos vices). Também os legislativos federal e estaduais: parte dos senadores (mais sobre isso depois), deputados federais e deputados estaduais (e suplentes de todos eles). Não há eleições separadas para vices e suplentes de senadores; eles integram a chapa dos titulares. No caso dos deputados federais e estaduais (e vereadores, abaixo), o sistema é outro, mas falarei disso no post sobre eleições proporcionais.

Nas eleições municipais, elegemos prefeitos (poder executivo municipal) e vereadores (legislativo municipal). Valem as mesmas observações do parágrafo anterior.

Falei sobre quem se elege, mas não falei sobre quem elege. Como o post já tá ficando grande, essas considerações (e umas outras), ficam para o próximo. Esta parte foi mais “burocrática”, a próxima vai ser mais pessoal e de ideias. Talvez amanhã mesmo (hã… hoje?).

Se alguém tiver dúvidas do que foi falado, pergunte, que eu vou atrás da resposta. Meu objetivo é justamente ir atrás de informação. Se alguma parte não ficar clara, também é só perguntar, claro.


Eleições no Brasil, parte 1 – introdução

17/06/2010

Antes de mais nada, é bom esclarecer que não quero falar destas eleições em particular, nem de candidatos em particular, campanha, nada disso. Depois, quem sabe. Mas agora o que eu quero discutir é o sistema eleitoral: como votamos, e como esses votos determinam os políticos eleitos.

2010 é ano de eleições gerais. Como não escrevo faz bastante tempo, e esse é um tema que me interessa muito, pensei em escrever sobre ele. Ao mesmo tempo, faço um serviço de utilidade pública! Já faz mais de 20 anos desde a primeira eleição nacional pós-ditadura e pós-Constituição de 1988, e mesmo assim muita gente não faz ideia de como funciona o sistema político-eleitoral brasileiro. Isso me incomoda. Me incomodava o fato de eu não saber muitas especificidades do sistema, e resolvi ir atrás. Aí tive a ideia de compartilhar esse conhecimento por aqui. Aprendo algo novo, tiro a poeira do blog (ou seja, combato a preguiça crônica de escrever) e ainda ajudo (espero) a espalhar um conhecimento útil que precisava ser mais difundido.

Por que é importante saber como funcionam as eleições? Nós valorizamos a democracia, e temos várias opiniões sobre ela. Mas não sabemos muito sobre a prática. As eleições são a parte mais importante dessa prática. Entender como funcionam ajuda a entender como fazer democracia, e não só opinar. Ajuda a sair da crítica fácil, de dizer que “é tudo culpa dos políticos” e dar de ombros. O discurso fácil é uma desculpa para fugir da responsabilidade que, no fundo, é nossa. Na democracia, políticos que não fazem nada de bom são fruto de uma população votante que não quer e/ou não consegue se informar. E se chegarmos à conclusão de que o sistema é uma droga mesmo, saber como ele funciona nos permite discutir como mudar.

Claro que as eleições não são tudo o que existe na prática da democracia. Todo o sistema político influi nela: o modelo político-administrativo (isto é, como funciona o sistema federação-estado-município), as regras legislativas, a Justiça, tudo isso também é parte dessa prática. Sem falar no mais importante: como os cidadãos podem interferir nisso tudo, o quanto podem participar ativamente do dia a dia político. Mas a nossa prática maior mesmo é nas eleições.

Por isso, se eu ajudar alguém a refletir sobre isso, me sentirei bem. Se incentivar alguém a discutir isso, melhor ainda! No próximo post começo a falar das eleições em si. Então, vem comigo pra esse mundo mágico de aventuras e muita confusão!

PS: Um dos principais objetivos do blog é me forçar a escrever. Por isso, agradeço qualquer comentário, opinião, feedback etc. Por aqui ou qualquer outro meio. É a primeira série de posts temáticos que faço, e o tema pode ficar complicado mais pra frente. Então o pedido é mais enfático =)

PS 2: Não consegui pensar em imagens legais pro post ¬¬ Mal aí!


As sombras de Hiroshima e Nagasaki

07/08/2009

Hiroshima depois da queda da bomba

Hoje foi o aniversário de 64 anos da pior tragédia da história humana. Nos dias 6 e 9 de agosto, os Estados Unidos lançaram duas bombas  atômicas, sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, respectivamente. Nesses dois dias, a crueldade sempre presente na guerra se elevou a um nível nunca antes visto. Não interessa o debate sobre se as bombas foram ou não inevitáveis, ou uma tragédia menor que a continuação do conflito. Elas foram o ato mais cruel da história da humanidade. Destruição em massa, instantânea e sem escapatória. Quase não há ruínas, apenas o solo liso. Não há corpos e enterrar, pertences a procurar, lembranças dos que se foram. Eles simplesmente desapareceram da face da terra. Outros tantos carregaram cicatrizes horrendas, físicas e mentais pelo resto da vida. E o mundo mudou para sempre.

Hoje, sessenta e quatro anos depois, eu, que não tenho nada a ver com o conflito, com as bombas, com Hiroshima, Nagasaki, Japão, Estados Unidos, nem nada, que poderia considerar tudo isso apenas mais um fato da história; eu me encontro chorando sozinho no quarto, pensando no horror puro e absoluto que tudo isso representa. Chorando, pensando no nada, no vazio que ocupou o lugar de todas aquelas pessoas. Pensando em como, depois desse dia, o mundo viveu com um medo que pode muito bem segui-lo até o túmulo. Em como a decisão de uns poucos idiotas pode acabar insantaneamente com a vida de tanta gente. Num ataque armado, numa invasão, num bombardeio, até num campo de concentração existe luta, resistência, fuga, no mínimo esperança de alguma possibilidade de sobrevivência. Na bomba atômica não existe nada, e dela não sobra nada. É uma catástrofe natural feita por pessoas. Com a diferença que a catástrofe é um acontecimento terrível, mas uma dizmação nuclear é um acontecimento terrível e cruel.

Não podemos nunca esquecer dessas duas cidades. De todas essas pessoas vaporizadas e desse deserto plano que mostram a crualdade máxima que a guerra pode fazer. Não podemos esquecer porque é o horror e o medo nas nossas mentes que impedem que alguém tenha a mesma ideia de novo. Quando esquecermos estamos fadados a repetir o erro.


Quadrinhos, finalmente, mas nada demais

23/07/2009

Hoje finalmente trabalhei com quadrinhos pela primeira vez. Foi só atualização ortográfica, e o grosso do trabalho vai ficar para amanhã. Meu objetivo maior, pro futuro, é me dedicar a ales. Antes preciso arranjar um emprego num lugar que trabalhe com isso, claro. Mas dei sorte e esse apareceu. As imagens são todas em baixa resolução, só o texto em alta (afinal, é só atualizar para a nova norma). Mas foi bom ter o gostinho. Claro que sei que trabalhar efetivamente com quadrinhos é bem cansativo, mas se é pra ser escravizado mesmo, que seja fazendo o que gosto. Mas enquanto não me formo, melhor continuar onde estou. Eu até falaria sobre a obra em si, mas sei lá se a editora quer isso divulgado antes da hora, né? ;) (Mesmo que seja só uma atualização ortográfica para entrar em algum programa de governo.)


Katawa Shoujo – um jogo erótico com deficientes físicos

20/07/2009

Pra entender direito este post, é preciso saber duas coisas: o que é uma visual novel e o que é o 4chan. Visual novel é um gênero de jogos pra PC criado no Japão; lembra mais ou menos aqueles livros-aventura, tipo “se você quer esquartejar o seu oponente, vá para a página 57; mas se você quer flertar com ele, vá para a página 69″. O jogo vai te levando por uma história e, em alguns pontos, você faz escolhas, que influenciam o desenrolar da trama. Geralmente esses games são em estilo anime e contêm cenas de sexo (eroge) e vários finais diferentes.

Já o 4chan é o imageboard (fóruns para postar e comentar imagens) mais famoso do ocidente. Todos os memes na internet são criados lá =P (ou passam por lá para virarem populares). Lolcats e rickroll só pra te deixar superimpressionado. Inicalmente era mais frequentado por otakus, mas agora é um antro de (pré-)/(pós-)adolescentes em geral, que podem falar merda à vontade porque a postagem é anônima. Mas a cultura de anime e mangá ainda é dominante.

Pois foi justamente no canal /a/ (de anime/mangá) do 4chan que esta imagem foi postada (clique para uma versão ampliada e traduzida para o inglês):

katawa-shoujo-small

É uma página extra de um dōjinshi, feito por um cara chamado Raita. São uns rascunhos de possíveis personagens de uma visual novel erótica que se passasse numa escola para pessoas deficientes. O tema, dentro do enorme e variado universo otaku, não é novo, e já tem seu nicho, por menor que seja. E todo tema otaku, por mais nicho que seja, tem sua versão pornográfica (muitas vezes são diretamente proporcionais). Esse “fetiche” (depois eu explico as aspas) geralmente é encontrado dentro de um grupo temático maior chamado guro (que envolve uma mistura de decadência, sexualidade, coisas chocantes, bizarrices… bem complexo, um dia faço um post só pra isso).

Voltando à imagem. Ela é puramente conceitual, claro, só um exercício de criatividade (e pra atiçar a mente de quem curte). Até que alguns 4channers resolveram que não, e foram atrás de fazer o tal game eles mesmos. Montaram um grupo, batizado de Four Leaf Studios, pegaram um programa específico para fazer visual novels, e botaram a mão na massa. Seguiram até a sugestão de título, Katawa Shoujo (algo como “garotas deficientes” ou “garotas aleijadas”). E o mais legal: o jogo será lançado numa licença Creative Commons (CC-BY-NC-ND, pra ser mais exato), o que significa que será gratuito e de livre distribuição. O trabalho é lento, mas anda. Em abril, foi liberado o Ato 1 do jogo.

O que me motivou a postar tudo isso foi uma notícia que li no GameCulture, que por sua vez comenta um post no blog Sociological Images. À primeira vista, um game erótico feito por otakus sobre um “fetiche” é um ímã para críticas do tipo “objetificação da mulher deficiente”, e já há quem o defina “perverso e inferiorizante“. Mas o Sociologial Images foi além do óbvio idiota para dizer o sensato: qual é o problema em ter pessoas deficientes como objeto de atração sexual, e retratar isso num jogo? A própria noção de que isso é um “fetiche” (entenderam as aspas, agora?) ou uma perversão, não é a descriminação maior? Não pode esconder uma noção de que pessoas deficientes, aleijadas ou deformadas não podem ser sexy?

O primeiro ato do jogo não tem nenhuma cena de sexo, então não dá pra saber como ele vai tratar esse aspecto específico. Mas, pela variedade das personagens (veja na imagem) e suas personalidades, e pelo que dá pra ver pelo site do jogo, parece ser uma tentativa de levar o assunto de uma maneira legal: não fugir dele, com todas as suas complexidades, mas também não ser supersensível. Até porque são várias as deficiências retratadas, e cada uma é muito particular, não dá pra generalizar. Arritmia (é o que o protagonista tem), queimaduras, aleijamento, cegueira, má formação, surdez… Como não joguei, não posso afirmar nada ainda. Vou baixar e depois digo o que achei.

A abertura do jogo está no YouTube, mas não diz muita coisa, então coloquei a montagem abaixo, que mostra as personagens.


Conservadores repaginados, lá e cá

19/07/2009

Vou misturar um assunto do qual não conheço muito, mas acho que deveria saber mais, e outro que não é essencial profissionalmente, mas gosto bastante. O primeiro é design, mais especificamente design de logotipos: como editorador, tenho noções de design gráfico (menos do que deveria), mas confesso que tirando o princípio geral de alinhar estética e funcionalidade, meu conhecimento da parte logotípica é mais intuição. O outro assunto é política. Gosto de política em geral, não exatamente no sentido de ter uma ideologia e segui-la. Sistemas políticos, partidos, instituições, eleições, a coisa toda.

Tudo começou quando, durante uma das inúmeras navegações a esmo pela Wikipedia, reparei que o Partido Conservador do Reino Unido tinha mudado seu design. Tempos depois, o então Partido da Frente Liberal (PFL) transformou-se em Democratas (DEM). Com a mudança, veio um logotipo novo. A imagem fala tudo:

demcp

A primeira coisa que me chamou a atenção, óbvio, foi a árvore. Me parecia uma coincidência e tanto dois partidos conservadores escolherem o mesmo símbolo (que não tem nenhuma associação  ideológica com eles) em sua repaginação. Depois vieram as cores: azul e verde. No Reino Unido, o azul sempre foi mais associado aos conservadores, contrastando com o vermelho dos trabalhistas e o amarelo dos liberais; já o verde é uma tentativa de dar uma cara mais ambientalmente responsável ao partido, bem na linha defendida por ele atualmente. Para os Democratas, há a justificativa de que são cores da bandeira nacional, mesmo que em tons bem diferentes, e a referência ao meio ambiente é uma possibilidade também. Aliás, a própria adoção de uma árvore ajuda os dois partidos a sinalizarem nessa direção, tão popular atualmente. Por fim, o arranjo: a árvore à esquerda e o nome, apenas um adjetivo, à direita, em azul. Não pode ser só coincidência… Na verdade, os dois partidos encontram-se numa situação com vários paralelos.

Mas por que raios uma mudança tão forte, em primeiro lugar? Os dois casos envolvem perdas eleitorais e tentativas de reciclar a imagem. No caso dos conservadores britânicos, começou com uma vitória esmagadora do Partido Trabalhista em 1997: os conservadores ficaram com 165 cadeiras na Câmara dos Comuns do Parlamento, enquanto os trabalhistas, sob Tony Blair, terminaram com 418, e mantiveram-se no poder até hoje. A ideia conservadora atual é perder um pouco da imagem sisuda e insensível herdada da era thatcherista e no lugar colocar uma mais agradável, jovem, com alguma preocupação social e responsabilidade ambiental. Todas essas características se unem no líder conservador desde 2005, David Cameron. Depois da mudança, uma grande vitória aconeceu em 2008, quando o conservador Boris Johnson ganhou as eleições para a prefeitura de Londres.

Vamos aos Democratas: em 1998, reeleição de FHC, a quem o então PFL supriu o vice, e foi bem nas eleições. Em 2002, veio a vitória de Lula e, em 2006, a reeleição. Em 98, o PFL elegeu 90 deputados federais, número que caiu para 54 em 2006; o número de governadores eleitos caiu de 9 para 1. Apenas no Senado o partido manteve sua força: elegeu 5 senadores em 98 e 6 em 2006. Nas eleições municipais, o cenário também foi péssimo: 1028 prefeituras conquistadas em 2000 e apenas 501 em 2008, já com o nome de Democratas. Situação eleitoral piorando, o PFL também resolveu mudar de cara. Tirar a imagem de um partido antiquado, de velhas oligarquias, para uma cara mais simpática e jovem, dando mais importância para uma geração seguinte (muitas vezes literalmente, com filhos e netos dos velhos comandantes). Uma cara que tem muito mais a ver com a maior vitória recente do partido: Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo. Forçando um pouco, dá até pra fazer uma analogia com a situação dos conservadores em Londres.

Com tantas similaridades, não é de se estranhar que o ex-PFL tenha buscado inspiração em como os britânicos resolveram seus problemas, mesmo que a situação atual dos dois países seja bem diferente. (Enquanto lá o governo trabalhista vai de mal a pior, e os conservadores parecem ter uma bela chance de saírem vitoriosos na próxima eleição, aqui o governo Lula tem uma popularidade altíssima e o DEM, como de costume, vai mais na onda do PSDB do que tenta conquistar um espaço próprio.) Só podia ter buscado o designer, também, porque esse logotipo dos Democratas é uma das coisas mais feias que eu já vi…

http://en.wikipedia.org/wiki/British_House_of_Commons

Preciso parar de escrever de madrugada

16/07/2009

Além de meus erros de digitação na madrugada aumentarem muito, hoje reli o último post e achei ele ruinzinho, meio mal escrito.

Blé…


Seja feliz! (É uma ordem!)

16/07/2009

Me motivei para escrever isto graças a uma notícia da Folha shareada pelo amigo Igor no Google Reader. Clique aqui para ver. De acordo com ela, estudos apontaram que a autoestima baixa não é curada com as famosas frases de autoafirmação presentes na autoajuda (um combo de “auto-”!). Pelo contrário, apenas piora. Depois de repetir “sou uma pessoa adorável” (achei o termo estranho… chuto que no original fosse “lovely”, que parece um pouco mais natural), os de baixa autoestima disseram se sentirem pior do que antes.

A parte que mais gostei foi quando a notícia diz: “Os psicólogos observaram que os voluntários de baixa autoestima se sentiam melhor quando podiam ter pensamentos negativos do que quando focavam exclusivamente em ideias positivas”. Matou a questão. Não dá pra simplesmente mudar o humor de alguém através da repetição de frases e pensamentos positivos. (Digo… se forem repitidos o suficiente, talvez virem verdade, já diria o velho Goebbels.) O melhor a se fazer é deixar que a pessoa possa expressar toda a sua baixa autoestima (ou tristeza, raiva, ou qualquer outro sentimento “negativo”). Aí sim, depois que ela teve a chance de se expressar e extravasar, dá pra começar uma tentativa de animar, sempre sem forçar a barra.

Tem algo que me incomoda bastante no mundo contemporâneo: às vezes, dá a impressão que é proibido não ser feliz. Em tempos de crise como os atuais, então, é questão de ordem espalhar a felicidade e o otimismo. Vejam as propagandas: se antes era “Beba Coca-Cola e seja feliz”, agora é “espalhe a felicidade… a aproveite para beber uma Coca-Cola”. Uma testa franzida, uma boca curvada para baixo, um olhar melancólico? Felicidade neles! Nessas condições, é mesmo tão surpreendente que cada vez mais gente tenha problemas de depressão e baixa autoestima? Não dá pra empurrar os outros sentimentos para baixo do tapete. Pode tentar, mas eles voltarão, enormes e arrebatadores.

A felicidade também tende a empurrar para debaixo do tapete a realidade. Que é bem simples: não vivemos num mundo só feliz (ou triste, ou raivoso, ou alegre…). A felicidade ocorre quando pensamos que está tudo bem ou nos dispomos a não dar muito valor ao que não está. A felicidade não duvida, não critica, só aceita e acredita. Sabemos disso pelo menos desde o pão e circo dos romanos. Uma existência puramente feliz é rasa e sem graça. É a velha máxima: não existe luz sem escuridão. A felicidade não vale nada sem os momentos infelizes para fazer a contraparte.

Só para terminar, quero dizer que isso não é nenhum “manifesto antifelicidade”. Ela é ótima e necessária, ou nos afundaríamos num mar de desespero. É a superficialidade de que precisamos para nos aliviar dos problemas. É o que nos permite apreciar o que temos de legal. Mas é apenas um dos inúmeros sentimentos que fazem a nossa existência ser tão profunda e viva.

(Desculpa, gente, me empolguei =P)


Da série “ideias de gênio para acabar com a pirataria”

14/07/2009

200px-EMI_logoVia Zeropaid, descubro que uma das 4 Grandes da indústria da música, a britânica EMI, decidiu que não vai mais vender para lojas independentes. Ou pelo menos nos EUA, não sei como funciona a distribuição deles aqui. Na verdade, chegaram a avisar seus pequenos compradores por telefone. Que… pessoal.

A grande ideia é, obviamente, cortar custos. As lojas independentes, em sua grande maioria pquenos estabelecimentos, terão que comprar de grandes redes, como supermercados. Claro, isso significa que o preço final deles aumenta, afinal os produtos passam por mais intermediários. Preço maior, menor chance de concorrer com essas mesmas redes. Óbvio que muitas lojas, por isso e por se sentirem indignadas, já avisaram que nunca mais vão vender nada da EMI. Outra coisa interessante, notada pelo Waynes’s World (onde surgiu a notícia), é que as grandes redes não disponibilizam obras de catálogo, apenas lançamentos. E as pequenas lojas muitas vezes eram as principais compradoras de catálogo. E agora, como faz?

A EMI, como todas as outras grandes gravadoras, aponta o download ilegal como o grande demônio que as está fazendo afundar. Considerando que muita gente baixa porque não tem acesso ao produto, uma ação como a da empresa, que diminui o acesso a esse prouto, com certeza vai pra grande lista de ideias de jerico para desestimular a pirataria. Boa… =P

PS: Se alguém ficou curioso, as outras três das 4 Grandes são, em ordem de tamanho: Universal Music Group, Sony Music Entertainment e Warner Music Group. A EMI é a menor.

PPS: coloquei o logo da EMI só pra dizer como ele parece logotipo de partido socialista.


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