Pra entender direito este post, é preciso saber duas coisas: o que é uma visual novel e o que é o 4chan. Visual novel é um gênero de jogos pra PC criado no Japão; lembra mais ou menos aqueles livros-aventura, tipo “se você quer esquartejar o seu oponente, vá para a página 57; mas se você quer flertar com ele, vá para a página 69″. O jogo vai te levando por uma história e, em alguns pontos, você faz escolhas, que influenciam o desenrolar da trama. Geralmente esses games são em estilo anime e contêm cenas de sexo (eroge) e vários finais diferentes.
Já o 4chan é o imageboard (fóruns para postar e comentar imagens) mais famoso do ocidente. Todos os memes na internet são criados lá =P (ou passam por lá para virarem populares). Lolcats e rickroll só pra te deixar superimpressionado. Inicalmente era mais frequentado por otakus, mas agora é um antro de (pré-)/(pós-)adolescentes em geral, que podem falar merda à vontade porque a postagem é anônima. Mas a cultura de anime e mangá ainda é dominante.
Pois foi justamente no canal /a/ (de anime/mangá) do 4chan que esta imagem foi postada (clique para uma versão ampliada e traduzida para o inglês):
É uma página extra de um dōjinshi, feito por um cara chamado Raita. São uns rascunhos de possíveis personagens de uma visual novel erótica que se passasse numa escola para pessoas deficientes. O tema, dentro do enorme e variado universo otaku, não é novo, e já tem seu nicho, por menor que seja. E todo tema otaku, por mais nicho que seja, tem sua versão pornográfica (muitas vezes são diretamente proporcionais). Esse “fetiche” (depois eu explico as aspas) geralmente é encontrado dentro de um grupo temático maior chamado guro (que envolve uma mistura de decadência, sexualidade, coisas chocantes, bizarrices… bem complexo, um dia faço um post só pra isso).
Voltando à imagem. Ela é puramente conceitual, claro, só um exercício de criatividade (e pra atiçar a mente de quem curte). Até que alguns 4channers resolveram que não, e foram atrás de fazer o tal game eles mesmos. Montaram um grupo, batizado de Four Leaf Studios, pegaram um programa específico para fazer visual novels, e botaram a mão na massa. Seguiram até a sugestão de título, Katawa Shoujo (algo como “garotas deficientes” ou “garotas aleijadas”). E o mais legal: o jogo será lançado numa licença Creative Commons (CC-BY-NC-ND, pra ser mais exato), o que significa que será gratuito e de livre distribuição. O trabalho é lento, mas anda. Em abril, foi liberado o Ato 1 do jogo.
O que me motivou a postar tudo isso foi uma notícia que li no GameCulture, que por sua vez comenta um post no blog Sociological Images. À primeira vista, um game erótico feito por otakus sobre um “fetiche” é um ímã para críticas do tipo “objetificação da mulher deficiente”, e já há quem o defina “perverso e inferiorizante“. Mas o Sociologial Images foi além do óbvio idiota para dizer o sensato: qual é o problema em ter pessoas deficientes como objeto de atração sexual, e retratar isso num jogo? A própria noção de que isso é um “fetiche” (entenderam as aspas, agora?) ou uma perversão, não é a descriminação maior? Não pode esconder uma noção de que pessoas deficientes, aleijadas ou deformadas não podem ser sexy?
O primeiro ato do jogo não tem nenhuma cena de sexo, então não dá pra saber como ele vai tratar esse aspecto específico. Mas, pela variedade das personagens (veja na imagem) e suas personalidades, e pelo que dá pra ver pelo site do jogo, parece ser uma tentativa de levar o assunto de uma maneira legal: não fugir dele, com todas as suas complexidades, mas também não ser supersensível. Até porque são várias as deficiências retratadas, e cada uma é muito particular, não dá pra generalizar. Arritmia (é o que o protagonista tem), queimaduras, aleijamento, cegueira, má formação, surdez… Como não joguei, não posso afirmar nada ainda. Vou baixar e depois digo o que achei.
A abertura do jogo está no YouTube, mas não diz muita coisa, então coloquei a montagem abaixo, que mostra as personagens.

Escrito por Pedro Carvalho