Me motivei para escrever isto graças a uma notícia da Folha shareada pelo amigo Igor no Google Reader. Clique aqui para ver. De acordo com ela, estudos apontaram que a autoestima baixa não é curada com as famosas frases de autoafirmação presentes na autoajuda (um combo de “auto-”!). Pelo contrário, apenas piora. Depois de repetir “sou uma pessoa adorável” (achei o termo estranho… chuto que no original fosse “lovely”, que parece um pouco mais natural), os de baixa autoestima disseram se sentirem pior do que antes.
A parte que mais gostei foi quando a notícia diz: “Os psicólogos observaram que os voluntários de baixa autoestima se sentiam melhor quando podiam ter pensamentos negativos do que quando focavam exclusivamente em ideias positivas”. Matou a questão. Não dá pra simplesmente mudar o humor de alguém através da repetição de frases e pensamentos positivos. (Digo… se forem repitidos o suficiente, talvez virem verdade, já diria o velho Goebbels.) O melhor a se fazer é deixar que a pessoa possa expressar toda a sua baixa autoestima (ou tristeza, raiva, ou qualquer outro sentimento “negativo”). Aí sim, depois que ela teve a chance de se expressar e extravasar, dá pra começar uma tentativa de animar, sempre sem forçar a barra.
Tem algo que me incomoda bastante no mundo contemporâneo: às vezes, dá a impressão que é proibido não ser feliz. Em tempos de crise como os atuais, então, é questão de ordem espalhar a felicidade e o otimismo. Vejam as propagandas: se antes era “Beba Coca-Cola e seja feliz”, agora é “espalhe a felicidade… a aproveite para beber uma Coca-Cola”. Uma testa franzida, uma boca curvada para baixo, um olhar melancólico? Felicidade neles! Nessas condições, é mesmo tão surpreendente que cada vez mais gente tenha problemas de depressão e baixa autoestima? Não dá pra empurrar os outros sentimentos para baixo do tapete. Pode tentar, mas eles voltarão, enormes e arrebatadores.
A felicidade também tende a empurrar para debaixo do tapete a realidade. Que é bem simples: não vivemos num mundo só feliz (ou triste, ou raivoso, ou alegre…). A felicidade ocorre quando pensamos que está tudo bem ou nos dispomos a não dar muito valor ao que não está. A felicidade não duvida, não critica, só aceita e acredita. Sabemos disso pelo menos desde o pão e circo dos romanos. Uma existência puramente feliz é rasa e sem graça. É a velha máxima: não existe luz sem escuridão. A felicidade não vale nada sem os momentos infelizes para fazer a contraparte.
Só para terminar, quero dizer que isso não é nenhum “manifesto antifelicidade”. Ela é ótima e necessária, ou nos afundaríamos num mar de desespero. É a superficialidade de que precisamos para nos aliviar dos problemas. É o que nos permite apreciar o que temos de legal. Mas é apenas um dos inúmeros sentimentos que fazem a nossa existência ser tão profunda e viva.
(Desculpa, gente, me empolguei =P)
Escrito por Pedro Carvalho